Demissao em Massa Anhanguera- SP
Projetos fez esse pedido de Acesso à Informação Pública para Ministério da Educação
A resposta deste pedido está muito atrasada. De acordo com a lei, em qualquer circunstância, Ministério da Educação já deveria ter respondido seu pedido. (detalhes). Você pode reclamar por apresentando recurso.
De: Projetos
29 de Janeiro de 2012
Prezado(a) Ministério da Educação,
Vcs já têm algum posicionamento em relação a essa questão? Os
professores desempregados aguardam.
A FARSA E A TRAGÉDIA NA FACULDADE ANHANGUERA
Prof. Richard Martins Kowalski
Há pelo menos 2 anos, e sobretudo após o "caso Geisy", convivemos
com os boatos de que a UNIBAN seria vendida. Alguns professores, os
mais otimistas, supunham que isso seria algo impossível de
acontecer. Acreditavam todos que nenhuma instituição no país teria
capital suficiente para embarcar na aventura de comprar uma
universidade à beira do colapso financeiro e com a imagem tão
(justamente) deteriorada.Acreditávamos que ela poderia falir, mas
não que seria comprada. Lidamos comesses boatos, que surgiam
ocasionalmente, com a incredulidade saudável de quem entende a
lógica dos boatos.
Seguindo uma exigência do Ministério da Educação (MEC), que
determina uma certa porcentagem de professores "mestres" ou
"doutores", bem como de um regime de trabalho em tempo integral
(T.I/40 horas) para o caso de Universidades (a legislação é
diferente no que diz respeito a Faculdades), as despesas da UNIBAN
com a folha de pagamento subiram drasticamente. O fantasma da
falência reforçou os boatos acerca da venda da universidade, boatos
que, ao se tornarem do conhecimento do reitor foram veementemente
negados. Os coordenadores acadêmicos, pedagógicos e os presidentes
de instituto se esforçaram para convencer os professores de uma
informação na qual muitos deles sequer acreditava. Aprendemos, a
partir daí,que na UNIBAN (bem como em qualquer organização), se o
boato fosse positivo para os funcionários (ou para os alunos)
deveria ser mentira; mas se ele fosse negativo, então certamente
seria verdadeiro. E a lógica subjacente a esse raciocínio era das
mais simples: não há necessidade de se mentir sobre uma informação
positiva. Pouco tempo depois todos os "presidentes" de instituto
foram demitidos junto com muitos funcionários administrativos. Não
sabíamos ainda, mas era a reestruturação inicial antes da venda.
Então, em um final de semana em setembro, ficamos sabendo (pelos
jornais) da compra da UNIBAN pela Anhanguera.Muitos professores
imaginaram que isso representaria uma mudança para melhor,tanto na
qualidade do ensino, quanto no tratamento dispensado aos
professores.Como a UNIBAN havia convertido a "iniciação científica"
no indigesto festival pirotécnico do "fórum universitário",
imaginamos uma política de incentivo à pesquisa que fosse séria.
Esperamos também um aumento significativo no número de bolsas de
estudos para os alunos ingressantes, bem como mudanças radicais nas
formas de avaliação (criticada por alunos e professores).
A sinalização da Anhanguera,no início, foi positiva. Recebemos por
e-mail manuais com orientações aos alunos afirmando que as mudanças
seriam para melhor e que NÃO haveriam demissões em massa. Apesar
das discrepâncias entre os salários dos professores da UNIBAN e da
Anhanguera, essa hipótese nunca foi considerada seriamente, afinal,
imaginamos que seria implausível demissões em larga escala.No
máximo seríamos instados a negociar nossos salários. Nesse momento
ainda imaginávamos que a Anhanguera quisesse deixar de ser uma
Faculdade, para com a aquisição da UNIBAN, ascender ao status de
Universidade.
A ilusão durou pouco. Rapidamente soubemos das suspensões das
bolsas de estudo que podiam ser oferecidas pelos professores, do
aumento nas mensalidades, da extinção do cargo de T.I (tempo
integral/40 horas) e da intenção da Anhanguera em permanecer como
Faculdade. Tudo isso aconteceu seguindo uma outra "mutação" que
deveria nos ter servido de alerta: a Anhanguera referia-se a si
mesma não como uma Universidade (o que já constituía um problema),
mas como uma "empresa"; seus professores eram agora chamados de
"colaboradores" e seus alunos de "clientes". No início de novembro
os coordenadores pedagógicos/acadêmicos participaram de um
"treinamento" em uma das cidades do interior de São Paulo onde a
Anhanguera atua, momento em que (dentre outras coisas) a estrutura
da instituição lhes foi apresentada. Eles retornaram otimistas e
cheios de planos e novidades para contar. Em menos de 2semanas
praticamente todos eles seriam demitidos sem aviso.
Surgiu então, na UNIBAN, um novo boato: para "cortar gastos" a
Anhanguera demitiria quase todos os professores mestres e doutores.
Violando a lógica do "se for ruim, não deve ser boato", imaginamos
que isso seria não só impossível quanto ilegal, imoral e
contraproducente. Quando o absurdo é grande, a razão tem alguma
dificuldade para processar a informação. Em seguida, ouvimos dizer
que não só mestres e doutores seriam demitidos, como aqueles
doutores que permanecessem empregados teriam uma "cota" de aulas:
no máximo 3 aulas semanais, o que representaria, na prática, uma
redução de cerca de 80% no salário. Ou seja, na prática eles apenas
"alugariam" seus títulos para que a Anhanguera pudesse mostrá-los
ao MEC. Contudo,desta vez o boato durou pouco tempo: em menos de 3
semanas o mais insano dos cenários provou ser verdadeiro. Faltando
poucos dias para as festas do final do ano, quando os alunos já
desfrutavam de suas férias, as tais reestruturações assumiram sua
verdadeira face: demissões em massa. O momento foi escolhido coma
inteligência empresarial típica; depois que os professores
corrigiram as provas finais e os alunos não tinham mais como reagir
por conta das férias .Muitos só saberão das novidades em 2012.
Enquanto tudo isso acontecia com a UNIBAN, a lógica empresarial da
Anhanguera fazia estragos em outra frente. O colégio Salete, recém
adquirido, vivia seu próprio drama. Em uma reunião com os
empresários da Anhanguera, pais, alunos e professores foram
informados de que o colégio estaria "encerrando suas atividades".
Todos os professores (muitos deles com filhos estudando no Salete)
foram demitidos imediatamente e os alunos, muitos deles bolsistas,
ficariam sem suas bolsas de estudo e sem escola. Essa foi mais uma
das "reestruturações" empreendidas pela nova gestão. Logo em
seguida os alunos foram informados, no final do semestre, que a
unidade Rudge seria desativada (ao que parece, ela já havia sido
vendida) e que eles teriam que ser remanejados para outras
unidades. Tudo isto estava sendo feito, naturalmente, em
"benefício" dos alunos. E como há males que não conseguimos
identificar a qual bem eles estariam a serviço, os alunos ficaram
sem entender e a Anhanguera achou que não havia qualquer
necessidade de fornecer maiores explicações. O ônus das
reestruturações começava a ser pago pelos alunos.
Mas como as farsas duram mais tempo que as tragédias, a fase das
mentiras não havia ainda chegado ao fim. Alguns alunos, geralmente
os melhores e mais próximos de seus professores ficaram sabendo
imediatamente dos últimos acontecimentos e esboçaram alguma reação,
que mesmo tímida, precisava ser neutralizada imediatamente. Essa
contra-ofensiva ficou a cargo dos empresários da Anhanguera e dos
poucos professores sobreviventes, agora alçados à nova categoria
de"coordenadores de curso". Esses coordenadores recém empossados
entraram em contato com alguns desses alunos para impedir que um
protesto na unidade Osasco acontecesse. O argumento terrorista
deles foi o de que "isso seria pior para os alunos" e talvez "o
resto dos professores fosse demitido". Mas mesmo assim, decidiram
barganhar da forma mais espúria: ofereceram, como sinal de boa
vontade aos alunos, retirar o nome de um dos professores da "lista"
de demitidos. Marcada uma reunião com os representantes de sala e
outros alunos, os dirigentes da empresa tentaram explicar o
inexplicável. O problema inicial foi o de qualquer empresa que
utiliza o eufemismo "reestruturação" em lugar de"demissão em
massa": ela precisa distorcer a realidade e alterar o significado
dos termos para conseguir atribuir algum sentido àquilo que não faz
sentido algum.
Como o primeiro ato dessa comédia toda não surtiu o efeito esperado
nos espectadores, os empresários da Anhanguera decidiram apelar,
novamente, para as explicações calcadas nos "benefícios", para os
alunos, dessa "reestruturação". Os alunos presentes tiveram que
escutar todo o malabarismo verbal da empresa tentando provar
logicamente que professores "especialistas" – pasmem – seriam
superiores a professores "mestres" e "doutores", e que tal mudança
seria um"avanço", uma melhoria significativa para o processo de
ensino-aprendizagem.Fico imaginando... como a USP, a Unicamp ou a
UNESP não pensaram nisso antes? Demitir todos os mestres e doutores
para melhorar a qualidade do ensino foi mesmo a contribuição mais
original da organização Anhanguera à sociologia da educação no
século XXI. Na prática eles levaram essa lógica às últimas
conseqüências, mas no site da instituição a propaganda de muitos
cursos prega a existência de 70% (ou mais) de mestres e doutores no
quadro docente. Se os especialistas são tão "superiores", por que
usar o alto índice de mestres e doutores como propaganda no site?
Propaganda enganosa, naturalmente, e que mostra bem as incoerências
no discurso da empresa Anhanguera.
Que alguns dos alunos presentes, mais preocupados com o valor das
mensalidades do que com a qualidade do ensino tivessem aceitado tal
argumento, seria compreensível. Sabemos da deficiência de muito
desses alunos, de sua falta de treinamento/interesse político (que
em parte podemos atribuir à ausência de "centros acadêmicos"), e de
suas relações de "clientes", de inimigos pagantes de seus
professores –considerados seus inimigos pagos – por estarem estes
entre a "empresa" e os clientes/alunos. Sabemos que muitos alunos
percebem seus professores como o elemento intermediário entre a
empresa (que tem interesse em distribuir diplomas)e eles mesmos
(interessados em adquirir esses diplomas), intermediário esse cujo
único (e sinistro) interesse residiria em "atrapalhar" essa
negociação financeira. No caso desses alunos, seria até
compreensível que deixassem denotar (por estarem mais interessados
no valor das mensalidades de seus diplomas) o argumento delirante
da Anhanguera. Mas não podemos dizer o mesmo dos novos
"coordenadores", responsáveis pela demissão de seus próprios
colegas de trabalho enquanto subscreviam as diretrizes da nova
empresa.
A resposta cínica de que "quem tem família para sustentar não pode
ser dar o luxo de ter princípios" sempre caminhou, em todos os
tempos, através da trilha aberta pela capitulação moral. E em
tempos sombrios (como nos mostrou o intervalo monstruoso do
nazismo) suas conseqüências sempre foram as mais devastadoras.
Enfim, alguns desses, os mais sádicos (porque eles existem em todos
os lugares) devem ter se sentido muito à vontade com essa nova
lógica, perversa em sua origem. Outros devem ter "sofrido" com toda
essa situação, mas não existe nada mais forte (e demasiadamente
humano) do que o poder da "racionalização". Em pouco tempo, mesmo
estes, para conseguirem lidar com o conflito moral, passaram a
acreditar (mais ou menos sinceramente) no discurso empresarial da
Anhanguera.Imagino que dentre estes (descontados os sádicos) estão
todos aqueles que sempre se mantiveram otimistas com o rumo das
coisas. Incluídos aí, devem estar, certamente, muitos professores
das áreas de "administração" e"psicologia organizacional", sempre
tão alinhados com o discurso neoliberal. Estes, muito habituados a
utilizarem o termo "reestruturação" em suas aulas, estejam agora
desempregados ou não, terão uma oportunidade valiosa para aplicar
suas teorias aos novos rumos da educação superior no país.
Mas este manifesto não surgiu para protestar contra as demissões
empreendidas por empresários disfarçados de educadores. Alguns de
nós, dentre os quais penso me incluir, nunca foram ingênuos ao
ponto de acreditarem que as instituições privadas de ensino
superior constituíssem "centros de excelência acadêmica". Nunca
vesti (e agora devo falar apenas por mim) a camisa da empresa.
Nunca achei que qualquer empresa representasse uma "família" ou que
fossemos, nós professores, indispensáveis ou insubstituíveis. Esse
tipo de crença pode até ser uma prerrogativa da docência superior
pública; certamente não da privada.
Por conta dessa confusão, muitos professores acharam (e ainda
acham) absolutamente irracional a atitude da Anhanguera.
Particularmente, não vejo nada de irracional em todo esse processo.
Se entendermos "racionalidade" como a adequação entre meios e fins,
nada há aí que possamos considerar irracional. A perplexidade surge
não do desconhecimento dessa fórmula que define a racionalidade,
mas do equívoco na compreensão do fim visado. Se aceitarmos o
discurso ideológico da Anhanguera de que o "fim" a que se destina
tais reestruturações seria a melhoria na formação dos
alunos/clientes, então o "meio" escolhido para se atingir esse fim
seria naturalmente irracional. Contudo, se rejeitarmos esse
argumento e substituirmos o fim alegado pelo verdadeiro "fim"
visado – dinheiro, lucro – então toda a equação voltaria a fazer
sentido e aquilo que parecia irracional revelaria uma racionalidade
evidente. Se a Anhanguera admitisse suas reais intenções e tentasse
argumentar a partir daí, então o seu discurso pareceria menos
delirante.
Tendo isso em conta, esse manifesto visa alertar a todos acerca do
perigo de permitirmos que a educação superior opere segundo a mesma
racionalidade das instituições financeiras. Em outros termos, se a
política do McDonald's é racional para vender lanches, não pode ser
considerada racional (se tivermos em mente uma educação de
qualidade)quanto ao mercado de diplomas. A educação como um direito
do cidadão a ser assegurado pelo Estado deveria escapar a essa
política, afinal, se as faculdades particulares proliferaram no
vácuo gerado pela inoperância do Estado em gerir a educação
superior pública, o Ministério da Educação deveria, pelo menos,
fiscalizar com mais empenho os abusos provocados por essa
inoperância.
Um exemplo cabal dessa falta de uma regulamentação está sendo a
"festa" do ensino à distância (EAD).Em sua origem, a idéia de se
"democratizar a informação", atingindo estudantes,professores e
profissionais das mais diversas áreas em remotas cidades do
interior do Nordeste ou da Amazônia nos pareceu muito apropriada.
Porém, com o passar do tempo, as faculdades particulares
perverteram essa boa idéia (sem qualquer oposição do MEC),
transformando-a em uma forma fácil e barata deformar alunos
residentes nos grandes centros urbanos. Assim, o EAD perdeu sua
orientação "social" inicial para se converter em uma verdadeira
mina de ouro para o ensino superior privado. Cursos de graduação e
pós-graduação à distancia proliferaram por todo o país com o
consentimento do Ministério da Educação, que repassou à iniciativa
privada sua responsabilidade por atender às demandas das populações
carentes e distantes dos grandes centros urbanos.
E os professores que, por má fé ou estrabismo intelectual não
perceberam o absurdo da proliferação dos cursos EAD, argumentando
ser impossível barrar o novo "espírito do tempo" amargam hoje suas
demissões e mesmo assim não conseguem notar todas as implicações da
catástrofe. Tais professores que sucumbiram ao discurso ideológico
do ensino à distância (confundindo aquilo que "é" com aquilo que
"deve ser") podem contemplar agora as conseqüências lógicas de uma
prática condenada ao sucesso, mas condição da desgraça.
Atenciosamente,
Projetos
De: Projetos
29 de Janeiro de 2012
Prezado(a) Ministério da Educação,
Gostaria se o ministério da Educação, ou mesmo o Ministério do
Trabalho dessa união já tem algum plano de intervenção a essa
instituição de ensino.
Atenciosamente,
Projetos
Coisas para fazer com esse pedido.
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